Política do governo alemão permite a expansão de fontes renováveis



A palavra que resume a revolução energética da Alemanha é “energiewende”. A expressão significa, em português, “virada energética” e surgiu na década de 1980, na esteira da crise do petróleo, do movimento anti-nuclear e do acidente de Chernobyl. Mas foi após o acidente nuclear de Fukushima, em 2011, que o termo ganhou nova força.

A maioria dos alemães se manifestou contra a manutenção das usinas nucleares. Por isso, o governo de Angela Merkel tirou da gaveta o antigo projeto que determinava o desligamento gradual de todas as 17 usinas atômicas do país. Uma decisão difícil, pois 23% da energia do país mais rico e populoso da Europa vinham justamente da nuclear. A partir de então, a população encarou o desafio e a “energiewende” virou política pública, mesmo que o problema ainda exista no quintal do vizinho.

A coluna sustentável foi até a fronteira da Alemanha com a França para mostrar uma situação curiosa. Do lado alemão, a decisão está tomada e todas as usinas nucleares serão desligadas até 2022. Agora, do outro lado da fronteira, 75% de toda a energia da França vem justamente da fonte nuclear e a usina mais antiga, a de Fessenhein, fica bem próxima dos alemães.

Vizinho do lado alemão, o imunologista Stephen Batsford diz que prefere não pensar em acidente. “Eu não estou preocupado”, ele diz. Mas quando se fala na “energiewende”, ele se entusiasma e diz que o programa é bom e pode ser copiado. “Acredito que seja uma boa possibilidade e poderia ser usado em todos os países europeus, se eles quiserem”, explica.
Em apenas dois anos de virada energética, as fontes limpas e renováveis cresceram 23% na Alemanha. O destaque é a queima de biomassa, como madeira ou lixo, que hoje já responde por 7% de toda a energia produzida no país. O vento representa quase 8% (7,7%) e o sol, quase 5% (4,7%), de acordo com a Agência Federal de Meio Ambiente, considerada o Ibama alemão.

O diretor da agência, Harry Lehmann, conta que metade das cidades do país já se comprometeu com a energiewende e que o país vai atingir todas as metas. “Eu estou convencido de que isso é possível. Se você colocar em cima também a eficiência energética e os ganhos que ela pode ter, se torna muito mais fácil substituir a energia nuclear”, ele afirma.

E é viajando pela Alemanha que se vê os resultados práticos da “virada energética”. Em uma distância aproximada de 60 km de Berlim, uma antiga base aérea usada pelos soviéticos na época da Guerra Fria foi transformada em uma gigantesca usina solar com 1,5 milhão de placas fotovoltaicas de última geração. Elas são feitas de um material alternativo ao silício, mais finas e baratas. É a maior usina do gênero em toda a Europa.

Hoje, a energia que vem do sol já abastece oito milhões de residências. E, em julho, o país bateu um novo recorde: a produção de energia solar foi 42% maior do que no mesmo período do ano passado. O chefe da Belectric, empresa que construiu a usina de Templin, diz que, apesar de o governo ter reduzido os subsídios ao setor, é um bom momento para se investir. “Eu diria que sim. Foi muito melhor no passado por causa do apoio generoso do governo, mas, no final, o que queremos é ter tecnologia que possa existir sem qualquer subsídio ou suporte. E nós estamos bem perto disso”, explica David Wortmann, diretor da Belectric.

O clima de otimismo só não é o mesmo entre as empresas de energia convencionais. A coluna Sustentável visitou, em plena floresta negra, uma usina que produz energia a partir da recirculação da água estocada. Os geradores ficam a 70 metros de profundidade e o reservatório, na superfície.

O porta-voz da Agência de Schuluchseewerk, Peter Steinbeck, conta que o crescimento das renováveis, principalmente da energia solar, fez o faturamento cair até 40%. Quando eu pergunto sobre o futuro, ele diz: “Nosso futuro? Eu acho que precisamos de novos modelos de mercado para vender e comprar energia para que possamos ganhar dinheiro e existir no futuro também. A energiewende é um problema econômico para qualquer companhia”, afirma Peter Steinbeck.

Ruim para uns, bom para outros. Especialmente para quem descobriu que o vento é um bom negócio. É cada vez maior a quantidade de aerogeradores espalhados pelo território alemão. O vento, de 32 GW, pode gerar mais do que o dobro da energia produzida pela hidrelétrica de Itaipu, no Brasil – em torno de 14 GW.

É impressionante a quantidade dos cataventos gigantes no meio da paisagem, que começam a aparecer também em alto mar. Tudo para buscar ainda mais eficiência. “É uma boa idéia porque a energia do vento torna você independente das fontes fósseis. Como as fazendas de vento são limpas e eficientes, não tem coisa melhor para se fazer”, conta Mário Göldenitz, representante da Parque Eólico Porep-Jaennersdorf.

O país que tem muito menos sol e vento do que o Brasil tem uma meta audaciosa pela frente: chegar em 2050 com 80% de toda a energia a partir de fontes limpas e renováveis. A conta é salgada: aproximadamente US$ 710 bilhões, o equivalente a um terço do PIB brasileiro. Até agora, nem a crise econômica que castiga a Europa atrapalhou os planos dos alemães. Na direção do sol, com o vento em popa, eles seguem em frente.